
Não houve jeito para Catarina, ela teve que procurar um lugar pra estravazar aquela tal ansiedade-necessidade, comum de todos, daquelas que ninguém sente pelo outro, metabólitos que o organismo não controla.Calma!Pelo menos até chegar em casa...Ai, esse ônibus que não vem....
Entrou no mais próximo que o guarda da estação tinha indicado, como se estivesse andando num vestido número trinta e quatro. Era uma visão horrível, suja, imunda, parecia metade do cenário dos filmes do Charles Bronson. Tomou coragem, preparou seu nariz psicologicamente, encheu as mãos de papel e se preparou para o rápido exercício que só as mulheres entendem...,...,...,que alívio...
"Alívio Imediato", leu na parede concordando com a cabeça, isso era o trecho de uma música, não? Curioso..., ah melhor não viajar, vai embora daqui!
"Jô Soares é gay"; "4431-5597, me liga" ; " Fe+ Carol"; "2231-4492, se você curte mulher liga pra mim, mas só se você curte, hein?" , lia nas portas e nas paredes pixadas, de repente, foi envolvida por suas gargalhadas, "O que será que essa doida tá fazendo lá dentro?", talvez pensasse a mulher que passava por ali... "Maconha, legalize já"; "Só o senhor salva"; "Vai dar o cu", "Eu amo o Gustavo"; " Pri, sua vaca"; foi seguindo com corpo e olhos aquele mural , com frases colegiais, letras horríveis, outras nem tanto, alguns recados, trechos de músicas, piches, xingos, declarações, nada se contava naquela marginalidade de palavras... "De tudo ao meu amor serei atento"... Ah! Vini, até você por aqui?!
Parou por um instante, abriu sua bolsa e sem pensar em algum preceito moral que a impedisse, pegou a caneta bastão vermelha e escreveu, abaixo da frase do Moraes, cujo espaço era razoável, a primeira frase colada no cérebro, de um livro que tinha acabado de ler, "Nascemos com um programa inviável, que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não permite."- Froide, assim, errado, fez questão de escrever. Aquela era sua marca. Essa era sua deixa.
Guardou a caneta, e antes de fechar a bolsa, pegou seu sabonete líquido, lavou bem suas mãos e as limpou com seus lenços perfumados - uma lady. Colocou seus óculos escuros e voltou para as ruas, aquelas que não a permitia também.






